quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os pés na água.



Procurei ser como a água.
Segui o rio, levado pela corrente.
Mas sinto-me como um seixo,
Arrastado até se deter e afundar.

Não era este lodo que eu procurava,
Mas a água empurra os limos, ramos
E folhas que a bloqueiam,
Até não poder avançar mais.

Sou por isso hoje um buraco negro.
Os viajantes passam e não notam,
Porque a minha face é mutável.
As folhas caem, mas nem as suas cores,
Formas e cadência me alegram.

Sou o culpado de não seguir
O meu mestre interior,
Esse conjunto de ideias
Que me forma, mas que agora me consome.

Ajudei quem não conhecia,
Sem saber quais as razões
Do seu infortúnio e castigo.

Mas a sua dor encheu-me
O coração e como tal agi.
Entreguei-o ás mãos que curam, mas
Tenho agora o mundo dentro de mim

2 comentários:

RETIRO do ÉDEN disse...

Muito lindo este conjunto de palavras tão sentidas.
Que seja um Mundo de Deus dentro de si. Que esses pés estejam sempre em águas límpidas e serenas.
Forte, forte, abraço
Mer

Anónimo disse...

Obrigado ao meu mestre António Serra pela honra de publicar este "poema", sem rima, mas que é inspirado pelos ensinamentos de vida que se aprendem nas suas aulas.

Gonçalo Poças