sexta-feira, 19 de abril de 2013

O Circo de Silvia Romão.



No Domingo à noite começaram a chegar camiões grandes e coloridos. Foram-se reunindo aos poucos no campo atrás de minha casa. Na segunda-feira de manhã enquanto me espreguiçava no terraço olhei de novo para eles. Tinham ganho forma, eram uma companhia de circo. Na segunda-feira a tenda estava montada, a bilheteira aberta e os anúncios postos a circular pela vila. Terça-feira à noite foi o dia do evento. Juntou-se a população para assistir ao maior espetáculo do mundo. Quarta-feira de manhã de novo no terraço volto a olhar. Das cores, do circo, da festa nem vestígios. Tinham partido para outro local onde, durante três dias irão cumprir de novo este ritual. A cada três dias, os artistas de circo começam tudo de início para acabar três dias depois.
Sentada no sofá da sala em frente à lareira e com uma chávena de chá na mão, estou em casa. Aparentemente o quadro é perfeito. Contudo esta sensação de pertença a um lugar, de encaixe neste abrigo que me oferece segurança e conforto nem sempre emerge. Tantas vezes acontece estar em casa e sentir-me longe, insatisfeita, com a sensação de que me falta algo para conseguir relaxar profundamente e apreciar o momento em que estou.
Inspirada pela vida dos artistas do circo, imagino como fazem para se sentirem em casa nos seus dias de contínuo movimento. Calculo que nas suas vidas não existam com frequência sofás em frente a lareiras em casas de tijolo, cimento, telhas e janelas de vidros duplos. Em cada local onde pousam nem sequer há tempo para criar raízes, consolidar hábitos, descobrir conforto. Ou tirar prazer de coisas tão simples como saber a que horas o pão acaba de cozer e ir a correr buscá-lo para que desapareça rapidamente numa dança sucessiva de fatias com manteiga.
Talvez eles tenham descoberto que o sentimento de chegar a casa não é algo que possa ser encontrado externamente. Casa é um conceito abstrato, sem forma nem local. Um conforto genuíno e duradouro que só existe dentro de nós mesmos.
Todos os dias quando nos sentamos para meditar, temos a oportunidade de explorar os cantos internos  da nossa mente onde nos podemos sentir seguros e confortáveis. Sem pensar no que deixámos por fazer no passado nem no que ainda temos para organizar no futuro. Apenas sentindo-nos por inteiro, tal como estamos no presente onde não há nada que possa ser retirado ou acrescentado.
Meditar é chegar a casa. E casa transforma-se assim em algo que se move conosco onde quer que vamos. Onde nos podemos recolher, procurar abrigo e conforto sempre que precisarmos.
Nós, este corpo animado por esta mente, somos a nossa casa. A meditação pode ser a porta de entrada.

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