quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Da Timidez.


Hoje revelo-vos um dos meus maiores segredos: sou irremediavelmente tímida. Desde muito pequena. Na escola os trabalhos de grupo, as idas ao quadro, o falar para a turma significavam sempre uma angústia contida por me ver obrigada a ser notada.
Na adolescência trocava muitas vezes saídas à noite por serões mais comedidos em que tinha por companhia apenas uma ou duas amigas com quem me sentia à vontade para conversar sobre os dramas existenciais da juventude.
Na família fui muitas vezes pressionada a trocar as minhas tardes literárias de fim de semana por eventos em grupo com gente da minha idade porque me fazia bem sociabilizar. No dia em que me anunciaram que eu iria para um campo de férias no Verão, não dormi durante uma semana a pensar que não iria ter oportunidade de ter tempo para a minha solidão.
Influenciada por uma sociedade que define a espontaneidade, a ousadia, a valorização das relações sociais e a manutenção de uma rede de contactos dinâmica como sinónimo de inteligência ou eficiência, cresci com a sensação de que a timidez é uma fraqueza. Desconfiada que foi muitas vezes a responsável por momentos de baixa auto-estima, comecei a estudar estratégias para a combater. Ou pelo menos, para a disfarçar.
Quando cheguei à idade adulta, determinada a ultrapassar este “defeito”, aprendi a camuflar esta minha tendência solitária. Adoptei a estratégia de, através de atitudes aparentemente espontâneas e extrovertidas, desviar a atenção de mim e conduzi-la para longe. E fi-lo de tal forma bem que quem me conhece dessa fase se ri quando confesso a minha timidez.
Actualmente, embora ainda não totalmente em paz com a minha falta de jeito para estabelecer relações sociais, consigo ver a timidez como uma característica e não como algo que esteja errado comigo. Aceito-a e descubro nela muitos benefícios que não teria se fosse extrovertida. Noto cada vez mais que as dinâmicas sociais acontecem exactamente porque existem tanto tímidos como pessoas que lidam bem com a exposição pública. Pessoas mais viradas para dentro e pessoas mais viradas para fora. E nenhum é pior que o outro.
Descriminar um introvertido é semelhante a uma atitude racista ou homofóbica. Não é um defeito, é uma característica. E, se a aceitarmos, os tímidos serão muito mais felizes e mais capazes de desenvolver o seu enorme potencial.

Foi por isso que ontem, quando ouvi este discurso, foi como se a oradora estivesse a falar de mim. E senti um enorme alívio. Partilho-o convosco, sobretudo com aqueles que, como eu, procuram uma forma de fazer as pazes com a timidez. (Silvia Romão - http://chegar.org/blog/)

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