sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Irritação.(para ler e reflectir)


As duas últimas semanas têm sido generosas em oferecer-me oportunidades de me olhar ao espelho e avaliar a quantidade de caminho que tenho para percorrer até conseguir ter um vislumbre das minhas ambições de desenvolvimento enquanto ser humano. Talvez pelo período de insónias que atravesso ou pela simples preocupação pelo meu presente e futuro profissional, instalou-se em mim uma irritação latente, prestes a manifestar-se à mínima faísca que o mundo me possa colocar à frente. Como o destino é brincalhão e tende a lançar provocações sobre as minhas fraquezas, o resultado tem-se traduzido em  ataques de “mau-feito” seguidos por longos períodos de remorsos.
Na tentativa de me entender de forma mais clara para poder tirar o melhor benefício desta fase, fiz uma lista de pequenos pormenores do dia a dia que facilmente intensificam este estado de efervescência interna e me fazem “saltar a tampa”. Eis algumas:
- Abrir a janela de manhã para constatar que o céu continua cinzento e a chuva continua a cair.
- Pegar no carro e deixar-me enclausurar numa inexplicável fila de trânsito.
- Participar em conversas de circunstância em que cada um de nós está mais preocupado em parecer bem do que em ouvir os outros.
- Ligar o computador, preparada para uma manhã de trabalho e descobrir que o serviço de internet está em baixo.
- Envolver-me em diálogos em que cada um de nós se valoriza pela sua profissão, pelo seu grau académico, pelas horas de trabalho em que nos envolvemos ao longo do dia esquecendo-nos que antes de tudo isso somos algo mais simples, mais válido e mais bonito: seres humanos.
- Ir ao banco e constatar que, sem qualquer aviso ou pedido de autorização, o estado voltou a invadir a minha conta e reclamar uma percentagem de dinheiro do qual nada fez para merecer e que para mim representa muitas horas de trabalho.
- Participar em conversas de amigos em que nos apressamos a atribuir rótulos a terceiros (normalmente ausentes) que frequentemente envolvem o uso de adjectivos como preguiçoso, falso, autoritário, desonesto sem notarmos que esses são também os seus próprios rótulos.
Foi nesta última reflexão que se fez luz! Não é o mundo que me anda a irritar porque a irritação não existe em nada que possa vir dele. Esta sensação inquieta de que algo está a ferver algures entre o meu pescoço e o meu umbigo pertence-me. Ela é o meu rótulo. Por muitas listas que faça, é para mim que devo começar a olhar e, através das oportunidades que se têm cruzado ultimamente na minha vida, aprender mais sobre esta minha característica.
Estando eu irritada ou não, o mundo avança na mesma, na sua passividade sábia de quem já viu muita coisa, pouco ou nada afectado pela minha turbulência interna. Mas a mim, esta irritação dá trabalho. Perturba-me. Irrita-me!
Cabe-me assim resolvê-la para poder de novo apreciar a vida de uma forma mais clara, mais justa com tudo o que de maravilhoso ela tem para me oferecer.
Como? Tenho a sorte de estar em contacto com uma das mais eficientes ferramentas para a promoção da clareza mental e do bem estar interior: a meditação.

A atenção plena na minha irritação integra agora também a minha prática diária, num trabalho desafiante de confronto com os meus defeitos mais mesquinhos e com toda a imperfeição de que sou feita. Porque afinal sou humana e, tendo eu coragem, estou cá para me enfrentar. (http://chegar.org/irritacao/)

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