sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um acto de Amor - por Sivia Romão.


Esta semana comecei o meu trabalho como voluntária. A tarefa era servir o jantar a pessoas que vivem na rua ou em situação de grande precariedade.
Como resultado, surgiu uma infinidade de palavras em fila para saírem pelos meus dedos no teclado que podem descrever a minha experiência. Palavras de tristeza, de emoção, de partilha, de solidariedade ou de compaixão. Palavras que contam histórias de vidas inimagináveis e de sobrevivências inacreditáveis.
Todos nós sabemos essas histórias. Já nos ligámos mais que uma vez ao sofrimento humano de forma tão profunda que nos foi possível sentir a dor alheia. E todos nós conhecemos alguém a quem a vida parece ter deixado de sorrir.
Por isso, não vou falar sobre a experiência gratificante que é o trabalho de voluntariado. Também não vou repetir o formato de escrita das histórias de desgraça alheia porque , sendo algo de venda fácil, podemos encontrá-las com facilidade em qualquer meio de comunicação social.
Prefiro falar do meu ego. No universo onde habito ele ainda é o protagonista. Mesmo sabendo que ele é a origem e a conseqüência de todas as minhas lutas internas, não consigo deixar de o valorizar. É esse o ego que caminha orgulhosamente para um serão convencendo-me da minha enorme bondade. Um ego que quer mostrar ao mundo o meu coração caridoso capaz de sair da rotina da sua vida confortável, atravessar a cidade para servir uma refeição a gente que existe na sombra da vida. Um ego que se esquece do trabalho de uma equipa inteira porque me convence de que se eu for suficientemente boazinha serei recompensada com sucesso e com reconhecimento.
No final da noite, depois do último sem abrigo sair o peso deste ego incomodava-me mais que o cansaço. Não me dei por vencida. Enquanto lavava os pratos, permiti que ele se diluísse com a espuma do detergente. Aos poucos deixei de o ouvir para dar ouvidos à voz que me diz que estar ali não tem a menor importância enquanto ser individual. Mas é fundamental para a equipa de trabalho e para os convidados que jantam.
Fui então capaz de sentir que não sou nem mais nem menos do que qualquer uma daquelas pessoas: desde o vereador da câmara à rapariga com marcas de agulha nos braços. Sou exactamente a mesma pessoa que a idosa que se sentou na mesa perto de mim e me sorriu sem esperar que eu sorrisse de volta porque é a isso que ela está habituada. Não sou menos que o homem de olhar vítreo que se colocou provocadoramente à minha frente, esperando que ao tentar afastá-lo eu lhe confirmasse o tão pouco que ele acha que vale. Nem mais que a rapariga sentada de auriculares nos ouvidos porque já não consegue suportar escutar nem mais um julgamento do mundo exterior.
A água suja e o ego poluído fluíam pelo cano abaixo. Uma sensação de alívio instalava-se comodamente no meio do meu cansaço. O que me diferencia deles é apenas o facto de que eu ainda não me esqueci que sou gente. Sei que é algo que me pode acontecer a qualquer momento e levar-me a um de dois extremos: a pobreza ou a ostentação. Qualquer um deles é um perigo porque quantos mais de nós nos esquecermos da nossa própria humanidade, menos pessoas haverão para apoiar os que já passaram essa fronteira.

Por isso descubro que mais importante que ser voluntária é meditar. Para me lembrar do que sou, para colocar o ego no lugar, para ajudar quem quer ser ajudado sem preconceitos nem ideias formatadas. É assim que a meditação se transforma num acto urgente de amor infinito por todos. Por tudo. (retirado de: http://chegar.org/um-acto-de-amor/)

2 comentários:

Isabel Novais Machado disse...

Boa tarde,

Enquanto pesquisava aulas de Tai Chi ao fim de semana em Lisboa, encontrei este artigo. Ando há alguns meses a tentar integrar uma equipa de rua, que facilite comida voluntariamente a pessoas sem abrigo.

Se me permite, posso-lhe perguntar, em que instituição começou a fazer voluntariado com sem-abrigo? Obrigada,

Isabel

Silvia disse...

Olá Isabel,

Claro que sim. Estou a colaborar como uma organização chamada Serve the City. Pode encontrá-los no Facebook: https://www.facebook.com/ServetheCity.Lisboa

Mais alguma dúvida, terei todo o gosto em responder :)

Silvia Romão